COMADRES: MANIFESTO DA IRMANDADE ENTRE MULHERES E A VIDA

Por Iris Lican para e com Lila Nuit

Co-Madre
Ser Mãe em comum.
Aplica-se, no conceito literal, a Mulheres em que uma é madrinha do filho da outra, ou Mulheres que são mães da/o esposa/o da/o filha/o da outra.

Ser Comadre é, no entanto, um termo popular de muito maior vastidão que se aplica a Mulheres que partilham uma cooperação e camaradagem afectiva tão estreita e íntima que se amadrinham entre si: cuidam uma da outra, cuidam das suas vidas em comum.

Nas comunidades camponesas ser comadre é semear e colher juntas os frutos da Terra, é rezar junto, serzir juntas (costurar, remendar, criar, cortar, refazer) as vestes do corpo como da alma, cuidar dos filhos uma da outra, curar-se e às famílias uma da outra.
Nas comunidades tribais as comadres são as Mulheres que cuidam e maternam tudo, dos seus filhos às crias dos animais, das sementes aos ossos dos ancestrais.

Para nós, ser comadre é tudo isto, e ainda mais, é também o tanto que as palavras não chegam para descrever.
Não o escolhemos, aconteceu.

Aconteceu que nos conhecemos e que o tempo, no seu vagar laborioso mas sempre sempre preciso, nos foi aproximando. Foi entrançando as nossas vidas na partilha de dança, cozinha, leituras e tantas viagens de carro a zonas do bosque do interior e norte do país.
Fomos sendo entrançadas nas cerimónias comuns, entre Samhains chuvosos, vigílias nocturnas de Solstício, fogos sagrados de Beltane e pedras ancestrais da sauna sagrada.

Depois, aconteceu o morar juntas, a Lila amadrinhar o meu filho, que a escolheu como Madrinha, num amor incondicional à primeira vista.
Daí, dessa partilha ainda mais forte entre dois casais, duas famílias que se tornaram uma no dia-a-dia partilhado surgiu o trabalho co-criado, para expandir o conceito de círculo, de comadres a uma comunidade alargada que pudesse beneficiar de apoio e respeito mútuo, tanto quando comunica e partilha como quando precisa de solidão regeneradora, tendo a vida amparada por quem pode estar de fora a cuidar esse tempo e espaço.

Depois, veio o parto da Lila, e a madrinha escolhida fui eu, numa jornada que nos retirou da casa e espaço de trabalho e nos levou a ser vizinhas e a criar outro ninho para receber quem nos acompanha.

A nossa história é uma manta de retalhos, sempre em contínua construção e desconstrução.
Onde a honestidade e a coragem de comunicar as coisas difíceis de dizer como as mais amorosas são a linha com que nos cozemos.
E então, assim vamos criando, desde 2013, uma comunidade circular de comadres, muitas outras comadres, que em comum se maternam, curam, aprendem e partilham.

Num momento de transição como o que vivemos, é essencial semear o ser Mãe, ser a cuidadora, mas a que cuida em cooperação, para não sucumbir ao esforço, ao desgaste, à culpa e à solidão. Cuidar a várias Mãos, cuidar a várias Mães, na reciprocidade de ser cuidadas enquanto cuidamos, dando e tendo autonomia neste amor, é talvez uma das chaves para a cura social e planetária que precisamos.

Dar na medida que recebemos e receber na medida que damos.
Quando uma não pode a outra dá e revezam-se quando o momento assim pede.
Damos o que gostaríamos de receber, porque ao fazê-lo valorizamos o que já temos e não o que nos falta e às vezes esse é o melhor caminho da cura interior.
Respeitamos o silêncio e o espaço.
Comprometemo-nos a ouvir além do dito e ver além do visível e a honrar o secreto como sagrado.
Vamos de mãos dadas, perdoando e sendo perdoadas e isso passa por expressar quando e como nos sentimos magoadas, sem acusar e sem reprimir, mas tentando entender o nosso lugar como o da outra.
Não ter medo de rasgar, porque às vezes mais vale um retalho do que um tecido esburacado: há que separar o útil do inútil e renovar-se sempre, concedendo a total liberdade de renovação à outra sem que isso signifique afastamento.
Dançar juntas no ciclo da Terra, da Vida e da Alma, entre o baixo e o cima.
Atravessar os Infernos com a chama do Amor cá dentro e ouvindo o canto da outra que nos orienta a casa.

Amor, simplesmente.
E a mais profunda Gratidão.
Á Lila e a todas as Comadres que temos no Coração e no caminho, e sempre de diferentes formas e no seu jeito único de ser, nos enriquecem em quem somos.
Sim, vocês sabem exactamente quem são e sei que o vão sentir quando lerem este texto.
Porque: esta história minha e da Lila tem muitas mais mãe e mães do coração tecendo-a.
E serve a Vida ao mesmo tempo que a cada uma e a todas as relações.

Foto: selfie, com a descrição da Lila no seu perfil facebook, a 16 de Setembro de 2018:
Recordo tão bem este dia!
A barriga já não me deixava ver o chão debaixo dos pés, ainda assim, andamos todos a segurar as ” paredes” do Yurt.
Não tinhamos ideia da longa jornada que nos aguardava nesta mudança, mas nem de perto nem de longe. Tu foste a que acabou de reerguer este projeto que sempre nos surpreende, que sempre nos abre o coração num abraço aconchegante. Enquanto isso os meus desafios eram outros e estive com os meus ouvidos, coração e alma nas histórias mais comicodramaticas, nos acontecimentos mais inacreditáveis deste virar da roda que gira gira da nossa Senhora d’Azenha
Quiseram os ares de Outono trazer-nos esta dádiva de finalmente recomeçarmos, de finalmente sentir que tudo vale tão a pena!
Com amor e gratidão profundos de sermos outras mulheres que não estas e ainda assim juntas no serviço de maternar este novo ninho agora mais crescido.    Lila Nuit

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